domingo, 7 de fevereiro de 2010

Sujeira e Vida.

Durante toda minha criação, a idéia de sujeira causou asco. É incrível! Isso é bem normal na verdade, mas isso na minha criação me marcou muito. Existiam recomendações até para, após o banho, secar a bunda com um papel higiênico e não usar a toalha que secaríamos o restante do corpo. Esse aspecto da sujeira, sempre foi rechaçado veementemente. E essa limpeza, obviamente se alastrava pela questão comportamental. As noções de discrição e sobriedade eram bem claras. É quase um culto a racionalidade mais tapada possível.
Até a alimentação passava por esse tipo de ditadura. O que nós ingerimos, não é que seja sagrado, mas tem que compor bem nosso quadro alimentar. Mesmo assim, por puro mimo, criei resistências que hoje preciso vencer, como comer verduras principalmente. Durante muito tempo, as folhas, dentro do meu ponto de vista, eram comidas de coelhos ou tartarugas.
Mas o tempo foi passando, eu fui amadurecendo em alguns aspectos. Nos tempos de UFF, da minha graduação, comecei a questionar não só politicamente e socialmente a nossa sociedade. Comecei a tentar mapear, de onde os meus hábitos vinham historicamente. Comecei a, a partir de uma autocrítica a perceber que os meus hábitos não eram só meus, mas parte da minha criação. A partir dessa percepção, questioná-los foi um pulo.
Percebi que essa noção de higiene que muitas vezes leva o cara a uma espécie de loucura, vendo germes e micróbios em vários lugares, não era natural. Em algum lugar na história da humanidade, as pessoas começaram a pensar dessa forma, e mais, não só no âmbito particular das higienes e das alimentações, mas principalmente no campo comportamental.
No tempo de universidade, conheci a força do álcool. Conheci as maravilhas comportamentais que a ingestão de bebidas alcoólicas, por vezes em níveis intoleráveis, ajudam o ser humano a ser mais ser humano e menos um fanático por postura, higiene e saúde. Além disso, outros estimulantes agregados ao álcool também são válidos como transcendentes de uma criação conservadora. Porém, existe um porém (hehe). Nós fugimos da nossa criação, mas nossa criação está arraigada em cada um de nós. Somente com muita análise, séria e sistemática você consegue fugir dos fantasmas impostos pela sua própria criação. Mesmo tento bebido bem, vivido bem, algumas vezes longe dos limites estéticos e morais impostos pela sociedade, nunca consegui ser tão sujo quanto alguns amigos meus, e isso ainda me frustra.
Esses amigos e companheiros, bebem em doses industriais, são a uma vista superficial, pessoas sem qualquer qualificação e por isso, circulam pelos lugares sendo enxotados ou sempre mal vistos. Nada mais idiota. Taí nossa gloriosa e moderna sociedade mais uma vez dando méritos a mediocridade e ignorando ótimos valores literários, críticos, técnicos, artísticos por conta de uma babaquice, por conta de um ideal estético deprimente.
Queria eu ser tão sujo quanto eles e dessa forma, obter os mesmos talentos e qualidades inerentes a eles por conta dessa vida nada ascética.
Dedico esse texto a Raphael Negão, Zé Colméia e Boi.

8 comentários:

Fábio Souza disse...

Francamente, não gostavamos de sujeira na infância/parte da juventude porque sequer fazíamos sexo! Pense bem no que nele acontece e me responda se você ainda limpa a bunda com papel higiênico? O cavaleiro Suburbano luta contra o Sens Comum, mas não pode escapar do fato de ser um Cavaleiro do seu tempo! O "Cocacoluns açúcares", o "Cachorus quentis" ou a "Cervejus est" vai nos matar antes do "Escherichia coli". Beijos. Fábio Souza.

Jair Junior disse...

é inevitável ser um homem do seu próprio tempo.

Tavinho Gio disse...

Acho q eu nao sei tomar banho até hj!
bela homenagem!!
grande abraço

Mauro disse...

...Mas o tempo todo, e durante a vida inteira, a gente tem que aprender a quebrar certas regras, desconstruir certas noções consideradas mais corretas. Quantas limpezas têm de ser feitas no correr do tempo / ocupação dos espaços...?

Erick disse...

interessante a sua opinião de q certas habilidades alheias estão ligadas a sujeira das pessoas. Interessante, mas...
todo mundo tem habilidades diferentes, independente de quão asseado seja... exemplo: o Boi pode tocar bem sua guitarra, mas ñ fazia uma miojada tão bem quando o Sr. Jair.
então... pára de ser invejoso só pq ele tem mais bactérias nos pés do q vc ! hahahah

Leandro Felipe disse...

Sei q aos seus olhos sou um merda limpinho e cheirosinho. Mas saiba q após o banho, limpo o meu rosto com a mesma toalha q usei p/ limpar a bunda.

Queila disse...

Acho a homenagem justíssima, só não concoredo na comparação entre Negão Zé Colméia e o Boi...o Boi não... Ele faz tudo aquilo de propósito, ele não é sujo, ele foi criado a leite com pera e a ovomaltino...Ele suja o pé antes de sair de casa... Ele é pai porra!!!

Mateus Tuzzin disse...

Interessante abordagem sobre a questão da sujeira no ser humano e os diferentes níveis de preocupação com a mesma por parte dos diferentes tipos de criação e personalidade.
Keep up with the good work man!